Cabo Polônio: Quanta estrela naquele tiquinho de céu!

Cabo Polônio é uma praia rústica, localizada no Departamento de Rocha, a 270 km de Montevidéu. Um passeio excelente pra quem está disposto a sair um pouco da zona de conforto e apreciar a natureza. O acesso não é tão fácil, mas é justamente sua localização afastada que a mantém preservada.

Cabo Polônio

Fomos pra lá a partir de Punta, então pegamos um ônibus até San Carlos, de lá outro ônibus até o terminal de Cabo Polônio e em seguida uma jardineira para atravessar as dunas e finalmente chegar à praia. O tempo total do percurso, sem contar as esperas, foi de cerca de 5h.

Não tivemos muita sorte no trajeto, pois obtivemos informação errada em relação aos horários de partida dos ônibus de San Carlos. Chegamos ao terminal por volta das 13h30 e o primeiro ônibus já tinha saído, o próximo (e último) chegaria apenas às 17h10, conclusão, perdemos esse dia quase inteiro na rodoviária, onde as opções de alimentação eram bem reduzidas…

Com cerca de 20 minutos de atraso, bem no finalzinho na tarde, nosso ônibus enfim chegou! Ele fez muitas paradas no caminho até Cabo Polônio e isso atrasou bastante a viagem.

Algumas horas depois, que pareceram uma verdadeira eternidade, já que estávamos com fome e exaustas, chegamos ao terminal de Cabo Polônio.

Fazia muuuito frio e um vento tão forte, que me senti no Alasca! Saímos rapidamente e fomos garantir nossa passagem na jardineira, que por sorte já estava ali. A ideia de viajar em um caminhão aberto, com aquele frio todo, me assustou um pouco, mas o percurso foi animado por um grupo de uruguaios “borrachos” que tocava violão e contava piadas o tempo todo, o que ajudou a passar o tempo. Encolhida no canto mais protegido do caminhão, na tentativa de parar de tremer, olhei pela primeira vez para o céu de Cabo Polônio (provavelmente pra reclamar!) e o espetáculo foi tão único, que todo o sofrimento já não tinha mais importância… Eu e minhas amigas concordamos que aquele era o céu mais estrelado que já tínhamos visto na vida! Lindo! Lindo! Lindo! Eu poderia passar a noite toda contemplando, mesmo correndo o risco de virar picolé!

Trinta minutos depois, chegamos ao nosso destino final! Não foi possível formar uma primeira impressão do lugar, já que não há luz elétrica na região e a escuridão era total. Os poucos pontinhos de luz vinham de velas nas casas e de lanternas. Por ali tudo é areia e a jardineira parou o mais próximo possível das hospedagens.

Fomos direto para o hostel previamente reservado, o “Viejo Lobo” e para nossa surpresa e desespero, não tinha nenhum quarto livre!

El Viejo Lobo

Eles estavam há vários dias sem internet, então, mesmo com a reserva confirmada pelo booking e com o comprovante impresso, estávamos na rua! O hostel estava completamente lotado, chance zero de barganhar sequer um lugarzinho na rede ao lado de fora! Após algumas sugestões feitas pelo pessoal da recepção, concordamos em alugar “la casita” e pelo que nos disseram, seria um negócio da China! Pagaríamos o mesmo preço do hostel (US$ 15 pra cada) e ficaríamos em uma casa para 5 pessoas com cama individual para todas e um banheiro privativo. Já estávamos quase comemorando a falta de sorte!

No caminho, começamos a perceber que aquela seria na verdade uma grande furada! Encontrar pontos de referência naquele breu todo, pisando na lama e sem a existência de um caminho demarcado, não foi nada fácil… Demoramos cerca de 10 minutos pra chegar a “la casita”, que era um verdadeiro show de horrores! Completamente imunda! Com roupa de cama em estado deplorável, banheiro sem porta e sem água (Banho?! Nem pensar!!!) e infestada de aranhas!

La Casita

O locador daquela “pechincha” nos orientou a pegar água do poço com um balde, mas acho que ele descobriu foi petróleo em Cabo Polônio! A água era preta, fedida e servia apenas para a descarga. Utilizei meu restinho de água mineral pra escovar os dentes e o resto, entreguei pra Deus!

Depois de deixarmos a bagagem ali, o Seba , nosso “guia”, nos avisou que deveríamos aprender o caminho, pois ele não faria aquele trajeto novamente e nos deu a dica de memorizar um colibri pintado do lado de fora da casa, pra que a gente não se perdesse (peguei ódio da pobre ave!)

Já conformadas com a falta de conforto, fomos jantar no “La Golosa” um restaurantezinho bem aconchegante e com ótima comida! A decoração era toda feita com antiguidades e peças de design que estavam à venda. Ali brindamos os perrengues do dia com vinho e ficamos rindo do nosso estado deplorável! Tivemos também o prazer de conhecer a Silvia, responsável pelo restaurante, uma uruguaia nota 1000! Extremamente gentil e solícita, com quem conversamos bastante.

Finalizado o jantar, passamos no hostel “Viejo Lobo” onde éramos “convidadas especiais” e poderíamos usufruir de todas as facilidades, rss! Tentei em uma última tentativa desesperada tomar um banho, mas foi em vão! Naquele dia o aquecedor não estava funcionando e água gelada com aquele frio todo, não dava! Pensei que todas as outras pessoas daquele hostel também estavam sem banho e ninguém parecia nem ligar… Isso me confortou! Ficamos batendo papo na beira da lareira, ali reencontramos pessoas que havíamos conhecido em Montevidéu e foi uma noite bem divertida, um momento da viagem que eu vou sempre lembrar com carinho.

No dia seguinte, aproveitamos a manhã de sol pra caminhar pela praia e buscar o que motivou a nossa visita a Cabo Polônio: os lobos-marinhos! Eles se concentram em um canto da praia próximo ao farol e foi muito interessante poder observar um pouco da rotina deles, caracterizada basicamente por muita preguiça ao sol, alguns mergulhos desajeitados, lentidão nos movimentos e até algumas brigas.

Lobos Marinhos

Depois subimos ao farol, de onde tivemos uma vista privilegiada e tiramos algumas fotos. A construção é bem antiga, data de 1881 e foi feita com o objetivo de reduzir a grande quantidade de naufrágios nessa área.

Na volta compramos um lanchinho e já era hora de ir embora!

Cabo Polônio

Se eu sofri com a falta de conforto? Sim, a falta de higiene me incomoda muito (principalmente quando se trata da minha própria!). Se eu voltaria pra lá? Com certeza! Pelo céu estrelado, pelos leões-marinhos, pela roda de violão em volta da fogueira, pelo vinho na beira da lareira compartilhado com pessoas do mundo todo, eu voltaria hoje mesmo!

Importante:

• Leve lanterna!
• É essencial ir de mochila, arrastar uma mala de rodinhas naquele areião pode acabar com a sua viagem (e com mala também).
• Esqueça o cartão de crédito, ali só dinheiro vivo! (Apenas as pousadas mais caras aceitam cartão) O melhor é ter pesos, mas também dá pra negociar com dólares e reais (obviamente com cotação abaixo da média).
• Se puder levar um litro de água, uma garrafa de vinho e um lanche, eu aconselho! É claro que tem como comprar por lá, mas se vc chegar à noite e cansado, vai achar que essa foi a melhor ideia da sua viagem.
• Fiz questão de descrever as dificuldades pelas quais passamos para que pessoas que tenham pavor de escuridão, de bichos ou não abram mão de certo padrão conforto, desistam dessa ideia. Cabo Polônio é um lugar incrível, mas certamente não agrada a qualquer um.

Onde ficar

Hostel Viejo Lobo
www.viejolobohostel.com

Custos

Diária “La casita”: US$ 15 por pessoa (mesmo preço para o Hostel Viejo Lobo)
Passagem San Carlos – Cabo Polônio: 263 pesos
Jardineira: 170 pesos ida e volta (guarde o ticket para voltar, caso contrário terá que pagar outro)
Café da manhã (Restaurante La Golosa): 130 pesos
Jantar (Restaurante La Golosa): 220 pesos

Deixe seu Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *