Uyuni: Ponto de partida para o deserto de sal

Partimos de Oruro à tarde e após uma viagem de 7h de trem, finalmente chegamos a Uyuni. Não nos preocupamos em reservar hospedagem, o que foi um grande erro. O evento “Rally Dakar”, que em 2014 aconteceu na Bolívia, havia terminado há poucos dias e muitos turistas aproveitaram a oportunidade pra “dar uma esticadinha”. Conclusão: a maioria dos hostels estava lotada e os preços bem mais salgados. Após 3 tentativas frustradas, conseguimos uma vaga pra passar a noite. Felizmente fechamos o passeio do deserto ainda em La Paz, mesmo assim, pagamos mais que o habitual.

Uyuni Bolívia

Não tivemos tempo de conhecer a cidade de Uyuni, pois nosso passeio sairia no dia seguinte às 11h. Aproveitamos nosso tempo pra dormir bem, tomar um café da manhã caprichado, trocar dinheiro e comprar lanches e água. Levamos um belo preju nesse câmbio, a cotação estava um roubo! Mas não tivemos outra opção…

Concluídos os preparativos, nos apresentamos na empresa em que faríamos o passeio (Empexsa). Eu estava bem apreensiva quanto ao guia, pois havia lido muitos relatos de péssimos profissionais que dirigiam totalmente bêbados, dormiam ao volante, etc. No entanto, tivemos muita sorte. Nosso guia, “Atílio Gabriel”, foi simplesmente perfeito! Super atencioso, prudente ao volante e não bebeu sequer uma gota de álcool. Pra completar, nosso grupo composto por duas peruanas, duas colômbias e dois brazucas (nós!), também estava super entrosado e o clima foi muito bom ao longo dos 3 dias.

Fonte: Site Empexsa

Fonte: Site Empexsa

Primeiro dia

Cemitério de Trens

Cemitério de Trens

Saímos de Uyuni por volta das 11h30 para um passeio de três dias, no qual iríamos percorrer 966 km. Alguns minutos depois fizemos nossa primeira parada: O Cemitério de Trens. O que se vê por ali são vagões abandonados ao relento, totalmente enferrujados. Nosso guia comentou que a ideia inicial era construir um museu para abrigar as carcaças das locomotivas, mas esse projeto nunca saiu do papel.

O motivo dos trens terem sido abandonados ali foi a falência de diversas empresas ferroviárias na década de 40, que ocorreu como consequência da crise na mineração. Na época, Uyuni era justamente o ponto de entroncamento das linhas que seguiam para o Oceano Pacífico e, portanto, acabou “herdando” o que sobrou das locomotivas.

Passamos alguns minutos ali tirando fotos e tendo nosso dia de “maquinistas”.

Museu de Sal

Uyuni - Museu de Sal

Como aperitivo, antes do salar, fizemos uma pausa em Colchani, onde fica o “Museo del Sal”, ali havia algumas estátuas bem interessantes, me lembro de ter visto uma em forma de llama gigante, que era a mais disputada para fotos (tudo ali é feito de sal). Também eram vendidos muitos produtos típicos, como chapéus, bolsas e souvenirs.

Deserto de Sal

Deserto de Sal

Voltamos para o jipe e após mais alguns minutos de estrada, chegamos ao tão aguardado salar. A paisagem é única, no total são 12.000 Km2 de deserto, formados a partir da evaporação de lagos pré-histórico. Segundo estimativas, o deserto contém cerca de 10 bilhões de toneladas de sal. Uma infinidade branca e reluzente, verdadeiro espetáculo! Como fomos na época das chuvas, havia espelhos d´água no chão refletindo as nuvens, realmente impressionante. É como se não houvesse horizonte e graças a essa falsa impressão, o cenário é um prato cheio para fotos com perspectiva. Não resistimos e também tiramos nossas fotos de “gigantes do gelo”, claro! Em seguida aproveitamos pra conhecer o cenário que havia sido montado para o Rally Dakar, uma grande escultura feita de sal, além, de diversas bandeiras dos países participantes. A do Brasil estava em farrapos!

Dakar Bolivia

Feita essa primeira exploração, paramos pra almoçar e o cardápio me agradou muito: quinoa, salada, legumes e carne. Pra beber, coca-cola! E ainda tivemos banana de sobremesa. Tudo bem quentinho, já que os alimentos foram guardados em recipientes térmicos. Considerando nossa fome, um verdadeiro banquete! O problema foi arrumar um locar pra comer, simplesmente não tinha! Sentamos em uns banquinhos de sal, com os pratos na mão e um sol de rachar na cabeça, bem desconfortável mesmo. Havia uma parte coberta, inclusive com mesas e cadeiras e algumas pessoas almoçaram ali, mas não sei se elas pagaram mais por isso ou se deram sorte de chegar mais cedo. De qualquer forma, a comida estava tão boa, que logo esquecemos o desconforto.

Hostel de Sal

Hostel de Sal

Já pensou em dormir em um hostel de sal?! Tá aí uma experiência interessante! Nos hospedamos no “Hostal Los Lipez”, localizado em San Juan de Los Lipez, bem simples, com acomodações coletivas, mas muito aconchegante e limpo (até o capítulo 2). Todas as paredes são de sal, assim como as mesas e camas. O resultado é uma atmosfera rústica e charmosa.

Quando chegamos éramos os únicos hóspedes, todos os quartos estavam vazios e tudo perfeitamente organizado. Achei ótimo e fui correndo aproveitar um banho sem fila. O aquecedor a gás garantiu uma água bem quente, mesmo com aquele frio absurdo que fazia do lado de fora.

Fomos convidados a tomar um chá de coca com bolachas enquanto esperávamos o jantar (tudo incluso! Mal pude acreditar!). Sentei em uma mesa com o pessoal do meu grupo e a essa altura já não éramos mais os únicos hóspedes, um grupo gigantesco de coreanos havia ocupado todos os outros quartos e feito um pacto pelo “não banho”, todos eles apenas lavaram os pés na pia do banheiro e deixaram tudo em estado de miséria! O chão era uma mistura de sal e lama. Uma tremenda falta de consideração com o próximo… Bom, mas fazer o que, né?!

Conversamos muito com o pessoal do nosso grupo e nos empolgamos tanto no chá que continuamos bebendo até a hora em que o jantar foi servido. Essa foi sem dúvida a melhor refeição de toda a viagem, um prato típico chamado “lomo salteado”, simplesmente fantástico! Ele veio em uma travessa grande de vidro e ali eram intercaladas camadas de carne desfiada (parecida com a nossa carne louca), batata frita, ovo cozido e salsicha. Embora pareça meio “exótico”, eu garanto: a combinação é perfeita!

Tiramos algumas fotos de um rebanho de llamas que estava bem na frente no hostel, mas tivemos que voltar logo, pois o vento e o frio eram insuportáveis. Fomos dormir cedo pra guardar energia pro dia seguinte.

Rebanho de llamas

Segundo dia

Deserto Bolívia

Nesse dia acordamos cedo, tomamos um generoso café da manhã com direito a pães, bolachas, manteiga, geleia, chá, café, suco e até salada de frutas com iogurte. Nosso guia nos informou sobre os pontos que visitaríamos e já avisou que não seria possível chegar à “Isla del Pescado”, pois ela estava completamente alagada devido às chuvas. Foi realmente uma pena, pois pelo que vimos nas fotos, o local era lindo!

Um pouco decepcionados com essa informação, mas empolgados com os demais atrativos que teríamos pela frente, seguimos. A paisagem estava bem diferente em relação ao dia anterior, primeiro porque já não estávamos mais no deserto de sal e, além disso, pela brusca mudança climática. O céu azul do dia anterior estava completamente cinza e carregado. O frio era de congelar os ossos e havia tantos raios e trovões que dava até medo. Logo começou a nevar, o que deixou as montanhas ainda mais bonitas. Nossa primeira parada foi o “Volcán Ollague”, paramos para algumas fotos, mas voltamos muito rápido, o vento era forte demais, não conseguimos aguentar por muito tempo.

Depois foi a vez das lagoas, uma mais bonita que a outra. Passamos pela “Laguna Canapa”, onde vimos uma grande quantidade de flamingos, que pareciam caminhar sobre a água, um belo espetáculo cor de rosa! Em seguida passamos pela “Laguna Hedionda”, que apesar de ser lindíssima, tem esse nome devido ao forte cheiro de enxofre que predomina em suas margens e na sequência fomo conhecer a “Laguna Honda”, assim batizada por ser a mais funda.

Montanhas Deserto Bolívia

Flamingos Bolívia

Uyuni 11

Tudo que tínhamos visto até então já havia me impressionado tanto, que eu já estava mais que satisfeita, porém, outras boas surpresas ainda nos esperavam. Seguimos para o “Desierto de Siloli”, onde vimos as montanhas de 7 cores e fizemos nossa pausa para almoço. O sol do dia anterior, que tanto havia nos incomodado durante a refeição, estava fazendo uma falta imensa. Sentamos em umas pedras, novamente com os pratos nas mãos, mas eu tremia tanto de frio que mal podia equilibrar meu prato. O cardápio foi: frango, macarrão e legumes, mais uma vez tudo muito saboroso! Pra beber, coca-cola e de sobremesa mexerica. Durante todo o almoço tivemos companhia, as “Vizcachas” (coelhos selvagens) que ficavam tentando roubar nosso almoço. Claro que elas ganharam umas cenourinhas!

Vizcachas

Já sem fome, nos despedimos dos nossos novos amigos e seguimos para a última atração do dia, “Árbol de Piedra”, trata-se de uma rocha que devido à ação do tempo ganhou o formato de uma árvore. Além dessa escultura natural, há outras pedras com formato bem interessante no local, mas novamente o mau tempo encurtou a nossa sessão de fotos. Bom, pouco importava, pois as experiências do dia tinham sido tão intensas, que nem mesmo aquele vento digno do Polo Norte poderia atrapalhar.

Arbol de Piedra Bolivia

Terceiro Dia

Nosso cronograma para esse dia era bem rigoroso em relação ao tempo, pois teríamos um longo caminho de volta a percorrer. Nossa primeira parada foi em uma área desértica com cerca de 2km2, conhecida com “El sol de Mañana”, lá pudemos observar os “Géisers”, vapores quentes que saem do chão em consequência da atividade vulcânica da região. Eles chegam a atingir até 50m de altura e é preciso ter cuidado para não se queimar com a fumaça. A parte difícil foi retirar a lama dos sapatos! Mas a paisagem pouco comum compensou o esforço!

Geyser, Bolivia

De lá seguimos para as “Aguas Termales”, que são piscinas naturais aquecidas. A água é realmente bem quente e devido ao contraste com a temperatura ambiente (digna de um freezer!) saía muito vapor (tanto da água como das pessoas!). Confesso que me faltou coragem, pra encarar as piscinas. Pensei que entrar seria ótimo, mas o sofrimento na hora de sair, me fez desistir. Só molhei as mãos pra conferir a temperatura (ótima!). Do nosso grupo, apenas as colombianas enfrentaram o desafio e garantiram que valeu muito a pena!

Aguas Termales Deserto

A próxima parada na verdade foi quase um “pit stop”, tão rápida que me frustrou. Passamos (literalmente passamos) pelas “Rocas de Dali”, formações rochosas que com a ação do tempo ganharam formas parecidas com as obras do artista espanhol, Salvador Dalí. Assim que saímos do carro, percebi que estávamos a cerca de 1km de distância das esculturas e comecei a caminhar em direção a elas, no entanto, logo fui advertida pelo guia, que me explicou que não teríamos tempo pra ir até lá. Ainda que as rochas fossem grandes, daquela distância toda não pude observar muita coisa…

Voltamos para o jipe e no caminho o guia nos mostrou o “Volcán Licancabur”, que estava completamente coberto de neve, muito bonito! Partimos para o último atrativo da viagem, a “Laguna Verde”, outra paisagem daquelas que a gente não se cansa de olhar.

De lá fomos para o “Valle de las Rocas”, mais um local para observação de rochas. Achei que valeu mais a pena do que as Rocas de Dali, pois pelo menos conseguimos chegar perto. Infelizmente nesse momento estava caindo uma bela tempestade e não conseguimos sair do carro pra apreciar com a calma que o lugar merecia, mesmo assim valeu a pena! Me despedi daquela paisagem com um aperto no coração, sabendo que de lá voltaríamos para a cidade.

O trajeto da volta foi bem cansativo, mas amenizado pela pausa pra almoço em “Villamar”, um pequeno povoado onde pudemos esticar as pernas, recarregar celulares e baterias das máquinas (nos dois dias anteriores isso não foi possível, pois a energia vinha de gerador) e aproveitar a comida, que estava muito boa! Macarrão com atum, salada de tomate e pepino. Pra beber, como sempre, coca-cola e a sobremesa dessa vez foi maçã.

Como já estávamos muito cansados, o trajeto até Uyuni parecia não ter mais fim. Eu ficava sempre de olho no motorista, com medo de que ele também estivesse exausto e dormisse ao volante, mas sua estratégia para manter-se acordado era mascar folhas de coca o tempo todo. Funcionou bem! Lá pelas 17h chegamos a Uyuni. Tivemos tempo apenas pra comprar nossa passagem pra Potosí e fazer um rápido lanche.
Compramos (por falta de opção mais barata) uma passagem em ônibus leito, a princípio achei uma pena termos pago mais caro, mas depois vi que valeu cada centavo. Esticar as pernas depois de três dias chacoalhando em estradas de terra não tem preço! Outro diferencial foi ter banheiro, pois mesmo em viagens longas, a maioria dos ônibus bolivianos não tem banheiros.

Custos

Passeio de 3 dias pelo deserto e lagoas com hospedagens + todas as refeições inclusas: Bs 800
Passagem Uyuni – Potosí (Empresa Emperador): Bs 50

  1. Parabéns pelo site e pelos posts incríveis.
    Adorei ir um pouquinho até o deserto de sal e outros lugares que nunca estive. Assim como rever lugares por onde já tive a felicidade de também estar.
    Muitas viagens para nós e muitos posts novos para o Mochila Mundo Afora !

  2. Oi Juliana, ótimo relato!
    Fui pra Uyuni ano passado mas fiz apenas o tour de 1 dia no salar por falta de tempo.
    Em fevereiro de 2016 volto pra lá e dessa vez faço o tour completo!
    Queria saber contigo, em que mês vc fez essa viagem que tinha tanta chuva e tempestade?
    Fui em Junho (inverno) e só tinha frio e tempo limpo!
    E outra coisa, esse valor de 800 bs. é por pessoa né? Qual agência?

    Mais uma vez parabéns e obrigado!

    • Juliana Faria

      Olá Rodolfo!
      Recomendo muito o tour completo! Eu fiz o de 3 dias, mas se vc estiver com tempo tem até roteiros maiores, com opção até de subir o Licancabur, um vulcão localizado entre o Chile e a Bolívia.
      Fui em janeiro e tive sorte com o tempo, não choveu muito não. No primeiro dia pegamos tempo bem aberto, no segundo nublou e no terceiro nevou! Foi legal pra conhecer todas as paisagens… Nos dias anteriores tinha chovido bastante e não pudemos conhecer uma parte que dizem ser bem bonita, a “Isla del Pescado”, pois esse local estava alagado…
      Fiz com a empresa Empexsa e gostei muito, recomendo! O valor de Bs 800 era por pessoa sim. Na época estava acima da média, devido ao evento Rally Dakar.
      Se precisar de mais informações é só falar! Boa viagem!

      Abraço!

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