Travessia Petrópolis-Teresópolis em Dois Dias

Essa clássica travessia pelo Parque Nacional da Serra dos Órgãos é conhecida pelas suas belas paisagens e alto nível de dificuldade (fama bem justa em ambos os casos!). São 30 km em meio a Mata Atlântica, enfrentado altitude, ladeiras intermináveis, muito vento e possivelmente neblina. Ainda tá fácil? Acrescente então uma mochila de uns 10 kg nas costas e aumente assim o grau de “emoção”. É pesado? Sim, não dá pra negar, mas igualmente compensador.

Parnaso
O mais comum é a realização do percurso em 3 dias, mas nossa opção foi concluí-lo em dois, o que teve prós e contras. Se por um lado o desgaste físico foi intensificado, por outro viabilizou sua execução em um final de semana comum, garantindo menos pessoas no parque e consequentemente mais tranquilidade quando comparado a um feriado.

Vamos então ao passo a passo pra quem tiver interesse em realizar (seja em dois ou três dias) a Petrô-Terê. É… A travessia apesar de “bruta”, tem um apelido carinhoso!

Logística:

A data escolhida para a viagem foi o primeiro final de semana de agosto, optamos por fazer no inverno pelo fato da incidência de chuvas e neblina ser menor, o que facilita a caminhada e favorece a visibilidade.

Com as taxas de entrada no parque e reservas de barracas devidamente garantidas, providenciamos a compra das passagens de ônibus. Tudo com muita antecedência, já que estávamos indo em um grupo de 23 pessoas, número bastante grande para os padrões de uma travessia como esta.

Não precisamos contratar serviço de guia, já que em nossa turma havia pessoas com bastante experiência em trekking, inclusive neste específico. Mas quem tiver interesse em se informar a respeito, pode conseguir o contato de guias no site do parque: www.parnaso.tur.br

Pegamos o ônibus na Rodoviária do Tietê às 23h com destino a Petrópolis, chegamos às 5h30, conforme o previsto e de lá pegamos um táxi, que nos levou até a entrada do Parque. Não tenho tanta facilidade pra dormir no ônibus e por isso já iniciei a travessia cansada, mas a empolgação de realizar um trajeto há muito tempo desejado, aliada à beleza da paisagem, me fez esquecer em poucos minutos a noite mal dormida.

Primeiro dia: Petrópolis (Bonfim) – Abrigo do Açu (7h de caminhada)

Esse dia não apresenta pontos com muita dificuldade técnica, porém, é bem servido de subidões… Parte-se de 1.100 m (na portaria do parque), atingindo os 2.245m na Pedra do Açú, tudo isso em apenas 7 km e com poucos trechos sombreados. O desgaste físico é inevitável e ocorre rápido. Porém, o visual é incrível! Quanto a isso não se preocupe… Não sei se conforta, mas seu sofrimento vai acontecer em um cenário digno dele!

Pedra do queijo

Após apresentação de documentos na portaria do parque, iniciamos a caminhada. São Pedro resolveu dar uma forcinha, a temperatura estava amena e o tempo bem limpo.

Travessia Petro-Terê

Fizemos algumas pausas rápidas para fotos e petiscos, mas escolhemos como local da “parada oficial” o Ajax, um dos poucos pontos com água dessa primeira parte da travessia. No pequeno filete que jorrava, pudemos recarregar nossos reservatórios, mas engana-se quem imaginou o conceito “sombra e água fresca”, o sol naquele momento era de rachar e as poucas sobrinhas mixurucas foram ocupadas antes que eu as encontrasse…

Mazelas à parte, recuperamos a energia e nos preparamos para a etapa seguinte, que seria ainda mais pesada, iniciada com a subida da “Isabeloca”, morro assim batizado graças ao fato (não sei até que ponto verídico), da princesa Isabel ter passado por ali montada em uma mula. Tive pena dessa mula… Carregando apenas nossas mochilas demoramos 30 minutos para vencer a ladeira.

Em seguida, passamos pelo Chapadão do Açu, de onde já era possível avistar o Castelo do Açu, uma impressionante formação rochosa, a mais bela paisagem desse dia na minha opinião. Nessa parte a orientação fica um pouco mais fácil, graças à presença de setas no chão e pedras empilhadas. É importante atentar-se a essa sinalização, já que em dias de nevoeiros, a visibilidade fica bem comprometida.

Castelo do Açu

Ainda pegamos um finalzinho de luz do dia e pudemos observar ao longe a cidade do Rio de Janeiro e até o Pão de Açúcar. Ficamos alguns minutos por ali contemplando… A vontade era ficar horas, porém, o vento intenso nos estimulou a seguir. Um pouco mais adiante, na Pedra do Açu, existe uma cruz, que é uma homenagem a um grupo de montanhistas mortos em 1992, em consequência de uma tempestade elétrica. Caminhamos mais alguns metros e chegamos então ao nosso destino final desse primeiro dia, o Abrigo do Açu.

Vista Castelo do Açu

O abrigo foi interditado há meses, devido às más condições de conservação. Apenas alguns responsáveis pelo local tem a autorização de entrar, o acesso do público em geral é limitado ao camping e ao único banheiro (sem energia e sem água quente) que há na lateral do abrigo. As condições de higiene obviamente são péssimas. A situação é no mínimo um desrespeito com um Parque Nacional desse porte e com os visitantes, que para estar ali, pagaram sua taxa de entrada. Entendo a dificuldade de se transportar o material de reforma, porém, as instalações se resumem a uma cabana, creio que com um pouco de boa vontade o problema poderia ser resolvido.

Abrigo do Açu

Em consequência da falta de estrutura, esse é o dia do “não banho”, para amenizar o problema, leve lenços umedecidos e improvise um banho a seco, isso é o máximo que você poderá fazer por sua autoestima nesse dia…

Armamos acampamento e após as questões de higiene pessoal estarem “devidamente” resolvidas, fomos preparar nosso jantar. Considerando a praticidade, optamos por levar comida liofilizada. A marca liofoods oferece bastante variedade, a rapidez no preparo (que se faz apenas com o acréscimo de água quente) e a isenção de conservantes, são os grandes atrativos. Minha opção foi pelo strogonoff de frango, que estava muito saboroso!

O consumo de álcool no acampamento é proibido e quem insistir em burlar a regra, pode ser surpreendido pelos responsáveis que passam periodicamente fazendo vigília. Outro ponto importante a ser destacado é que as pessoas devem levar consigo todo o lixo que produzirem, para descarte apenas no final do trekking. Dessa forma, reduza ao máximo o volume das embalagens, em pouco tempo elas se tornam um peso morto.

Após ser presenteada com um céu estreladíssimo e uma lua cheia das mais belas que já vi, fui dormir. Creio que isso aconteceu antes das 20h e eu apaguei como se estivesse na mais confortável cama de hotel. Graças a um bom saco de dormir (para temperatura -5°C), não passei frio nem desconforto.

Segundo dia: Castelo do Açu – Teresópolis (12h de caminhada)

Despertamos às 5h30 da manhã para organizar a partida e ainda contemplar o nascer do sol. Mesmo tendo ido dormir tão cedo, esse horário foi uma afronta à minha musculatura dolorida, porém, me enchi de coragem e fui atrás do sol. Fomos até a Pedra do Açu, onde cabos de aço auxiliam a subida. Ele se fez de difícil… Demorou, ensaiou, enrolou mais um pouco, mas no final venceu a neblina e saiu do meio dela dando show! Em tons de alaranjado, vibrante, digno de aplausos!

Nascer do sol  Pedra do Açu

Com a imagem registrada na memória, descemos para o acampamento. Improvisamos o café da manhã com cappuccino solúvel, lanchinhos e goiabada (gordo, mas eficaz!) e assim iniciamos nosso segundo dia, que seria extremamente exaustivo (esse é o trecho que a maioria das pessoas quebra em dois).

Essa etapa apresenta uma altimetria menor, porém, é muito longa, são cerca de 23 km e alguns trechos apresentam dificuldade para serem transpostos, como por exemplo, o cavalinho e o elevador.

Iniciamos a caminhada às 7h da manhã, dessa vez com tempo bem frio, devido ao horário e à altitude, mas também tivemos sorte em relação à visibilidade, o céu estava limpo e não havia neblina.

Nosso primeiro presente foi atingir o cume do Morro do Marco, de lá pudemos ter uma vista incrível, com direito a contemplação do Dedo de Deus e da Pedra do Sino. Após mais alguns minutos, chegamos ao nosso primeiro local de descanso, o Vale da Luva. Ali já estávamos com as pontas dos pés doloridos, já que o acesso ao vale se deu por uma ladeira muito íngreme, dessas que exigem passos curtos e massacram os dedos contra as botas… Esse foi um ponto de água, onde aproveitamos pra encher as camelbaks e respirar um pouco.

Morro do Marco - PARNASO

Continuamos o trekking rumo ao elevador, um dos trechos famosos por sua dificuldade e que demora um pouco pra ser superado, principalmente em casos de grupos grandes como o nosso. Trata-se de um paredão, no qual barras de ferro fazem as vezes de escada. Minha maior dificuldade foi a falta de alguns degraus, os suportes sofrem com a ausência de manutenção e para uma pessoa baixinha como eu, não é nada fácil subir dois suportes de uma vez… Apesar do sufoco, chegamos todos bem! E a comemoração no topo do morro foi grande!

Elevador

O obstáculo seguinte foi o mergulho, uma depressão nas pedras onde é necessário ter cautela. Nesse ponto, duas pessoas mais experientes passaram primeiro e de lá ficaram dando apoio e pegando as mochilas dos demais. Demoramos um pouco, mas correu tudo bem.

Logo em seguida tivemos mais um extra de adrenalina, o cavalinho. Trata-se de uma pedra que para ser transposta exige que as pessoas subam nela como se fossem realmente montar em um cavalo. Tive um pouco de medo sim, não dá pra negar… Novamente, passamos primeiro as mochilas e fomos em seguida sem peso. Daí em diante ficou tudo mais fácil… Bem, isso em relação aos obstáculos, pois ainda tínhamos muito chão pela frente.

Cavalinho

Cavalinho

A próxima etapa seria um dos momentos mais aguardados da travessia, a subida à Pedra do Sino, ponto mais alto da Serra dos Órgãos, com 2.263m de altitude. Creio que levamos 30 minutos para subir e descer a Pedra. A trilha de acesso não apresenta grande dificuldade, porém, não é bem sinalizada, é preciso ficar atento para não passar reto. O tempo aberto continuou nos favorecendo e dali pudemos ter uma vista muito boa de todo o Parque.

Pedra do Sino

Logo à frente fica o Abrigo da Pedra do Sino, quem optar por fazer a travessia em 3 dias, terá ali o seu pernoite, com direito até a banho quente (taxa de R$20,00).

Infelizmente, nosso tempo era curto, não houve pernoite nesse abrigo e nem banho, ainda teríamos mais 12 km pela frente, carregados de grande monotonia. Nessa parte o acesso se dá por uma estradinha estreita de pedras e coberta por mata fechada. Pra quem já está no limite da exaustão, como era o nosso caso, ela parece não ter fim… Mas teve! Após 4 longas horas de descidas moderadas, finalmente chegamos a Teresópolis! Hora de comemorar, de comer muito e até de tomar um merecido banho em uma academia com a qual negociamos previamente.

Dessa vez, dormir no ônibus não foi problema algum, dormi assim que entrei e acordei às 6h da manhã na Rodoviária do Tietê, de onde peguei um táxi e fui direto para o trabalho. Absurdamente cansada, mas também com muita história pra contar!

Custos

Passagem SP-Petrópolis (Empresa Salutaris): R$ 86,66
Passagem Teresópolis – SP: R$ 96,44
Entrada no Parque + 2 dias de trilha: R$ 65,00
Táxi: R$90 dividido entre 4 pessoas (R$ 22,50 para cada)
Aluguel de barraca: R$ 40 (por barraca p/ 2 ou 3 pessoas)
Banho no camping da Pedra do Sino: R$20 (por 5 minutos)
Site do parque: www.parnaso.tur.br

Importante:

– O limite de visitantes no parque é de 100 pessoas por dia, por isso, garanta seu ingresso com bastante antecedência.
– O abrigo do Açu dispõe apenas de 6 barracas para alugar, é imprescindível verificar a disponibilidade antes da viagem.
– Documentos pessoais e comprovantes de reserva são exigidos na entrada do parque.

O que levar

Roupas / calçados

– 1 par de botas
– 1 par de chinelos
– Roupas íntimas
– 2 pares de meias (mais compridas, próprias para trekking)
– 1 segunda pele
– 2 camisetas dry fit manga longa
– 1 roupa confortável e quente para dormir
-1 anorak
– 1 par de luvas
– 1 touca de lã

Minha dica é já viajar com a roupa do primeiro dia de trilha e voltar com a roupa que vc utilizou apenas para dormir.

Higiene pessoal / remédios

– 1 mini frasco de shampoo (preferência 2 em 1)
– 1 mini sabonete
– 1 desodorante
– 1 escova de dentes
– 1 pente
– 1 pasta de dentes (preferência tamanho miniatura própria para viagem)
– 1 fio dental
– Lenços umedecidos
– Papel higiênico
– Remédios de uso pessoal (levei pomada cataflan e micropore e foi muito útil)
– 1 toalha pequena

Equipamentos

– 1 barraca (pra quem não for alugar)
– 1 isolante térmico
– 1 saco de dormir (levei para -5°C e dormi muito bem, mas ele é um pouco volumoso)
– 1 mochila de 60L
– 1 fogareiro à gás
– Gás Tek
– 1 pequena panela
– Talheres de camping
– 1 caneca de plástico
– Headlamp (com pilhas novas)
– 1 Canivete
– Isqueiro
– 1 Camelback
– 1 GPS

Alimentação

– Comida liofilizada para a refeição principal (é de fácil preparo e não possui conservantes)
– 4 sanduíches para os dois dias de trilha.
– Café solúvel, cappuccino ou chá para o café da manhã
– Opções de petiscos: frutas secas, castanhas, frutas frescas como mexerica e banana, que são bem práticas, chocolate e ovo cozido (descascar na hora).

  1. Juliana! Gde caminhante Adorei! Muito legal te ver firme e forte nesses caminhos incríveis que pachamama nos proporciona… desejo de coração que contínuas assim, experimentando todas essas belezas e desafios… e compartilhando essas experiências vividas nesses caminhos com ou sem, mochilas mundo a fora!
    Bjos e abraços, e até a próxima aventura!

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